Profissionais avaliam documentários em último dia de laboratório audiovisual do Fica

Avaliadores trabalharam pontos de melhorias na produção de documentário, longa-metragem e animação

Nesta quarta-feira (18/11), segundo e último dia das consultorias privadas do Laboratório Audiovisual Goiano, os avaliadores trabalharam junto a projetos em diferentes etapas e gêneros, o que possibilitou uma gama de percepções sobre a produção cinematográfica.

André D’ Élia (diretor), Caio Dornelas (produtor) e Cristiane Oliveira (cineasta) se dividiram na avaliação de um documentário, um longa-metragem e uma animação - esta destinada ao público infantil.

Para fechar com êxito o laboratório, na próxima sexta-feira (20), às 19h, será realizada uma mesa de debate ao vivo no canal da “Secult Goiás” no YouTube, com avaliadores e realizadores desta edição.

Pesquisa nunca é demais

André D’ Élia voltou a reforçar a importância da pesquisa aprofundada sobre o tema central. “O que o público tem que saber antes, para entender o que vem depois? Organizar essas ideias para poder filtrar e até descartar algumas”, recomenda.

Neste sentido, o diretor orienta que os realizadores partam de suas experiências pessoais – que, muitas vezes, é o que motivo o tema –, mas que o amplie a públicos diversos. Para ele, esse direcionamento leva a “explorar a trama de forma inteligente”. “No cinema, isso tem um nome: ‘hifenização’. Tudo que acontece no filme é em relação a você (quem cria), mas precisa relativizar isso com outras pessoas”, explica André D’ Élia.

“Se você começa a excluir quem pensa muito diferente de você, você limita o discurso”, alerta. “Por isso, nos meus trabalhos, eu busco relativizar com todos”, disse, citando em seguida a cineasta e roteirista brasileira Suzana Amaral, falecida em meados de 2020 aos 88 anos, que foi sua mestra: “Toda verdade já foi claramente desonrada”.

“É preciso buscar a sua verdade e ela tem que ser sólida”, reforça André. O diretor esclarece que, como o cinema está em tudo, ele vê tudo. “Quem faz cinema, está ameaçando certas estruturas (de poder) e isso exige coragem”.

Ritmo

A mentoria do produtor audiovisual Caio Dornelas foi com o projeto de um longa-metragem com características documentais. Ele falou sobre ritmização na passagem das cenas e da trilha sonora como norteadoras do roteiro até virar produto.  “É importante fazer testes. Por exemplo, se a cena pede um tipo específico de som, como melancólico, se aventurar a experimentar o contrário, algo alegre. Para ver o efeito que isso causa. Mesmo que não venha a ser usado o contraste completo, se descobre outras possibilidades”, aconselha.  

O ritmo, segundo ele, deve ser pensado desde o início da produção do material, não só quando se está concluindo, o que possibilita uma percepção mais universal do filme. “Explorar o ritmo de passagem das cenas pode avançar barreiras do filme enquanto produto. Ir elaborando o trailer desde o início, te guiará também para o exercício de ritmo (do todo)”.

Público Alvo

Com a experiência adquirida na coordenação do programa Anima TV (2009-2011), realizado pelo extinto Ministério da Cultura, a cineasta Cristiane Oliveira destacou a questão da representatividade em sua mentoria. O projeto do seu mentorado é uma animação com viés educativo para o público infantil.

Ela observou que é ainda mais importante, quando se trata de crianças, repensar termos e estereótipos, bem como a faixa etária a que o produto final será destinado, pois elas não têm repertório de vida para compreenderem certas referências. “É preciso tomar cuidado para não confundir a criança”.

Outro aspecto que ela trabalhou foi o fato de que a escolha da idade do personagem principal irá, consequentemente, definir o público alvo.

“As crianças de 6 a 8 anos vão gostar de um personagem a partir dos 10, 12 anos”, por exemplo, pois querem crescer. Além do mais, “crianças possuem uma relação aspiracional com o produto visual que consomem, ou seja, projetam nos personagens o que querem ser”, completa.  

Dica de ouro

Cristiane também se debruçou sobre a questão comercial de projetos de animação, cujo mercado é amplo. “O produto não se esgota na função televisiva. Já projete a possibilidade de expandir para outras plataformas, como jogos, séries, dentre outros”, aconselha. Segundo ela, esse tipo de projeção pode ser registrada na bibliografia de comercialização, apenas como citação. Não precisa elaborar.

“Outro aspecto a ser avaliado são os direitos que a emissora que se interessou pelo produto terá. Em longo prazo, se o material vier a fazer sucesso, outras oportunidades mercadológicas podem ser prejudicadas e até anuladas”, alerta.  

E, por fim, ela orienta que o realizador pense bem antes de relacionar seu material com certas referências diretas. “Pode ocorrer de um jurado de festival, ou um possível financiador, não gostar justamente daquela referência que foi associada ao material”.